Muvucando

Após mais de meio século de sua implementação, podemos atualmente sentir os efeitos da chamada “revolução verde”, denominação utilizada para caracterizar o conjunto de políticas que, apoiando-se na idéia de fortalecer um modelo de sociedade urbano-industrial, mudou drasticamente a forma de se produzir alimentos no Brasil. Se por um lado o país tornou-se o “celeiro do mundo”, por outro os custos sociais e ambientais foram enormes. De fato, a necessidade de recuperação de áreas degradadas aumenta a cada dia tendo em vista que vivenciamos os problemas de um modelo de produção que não respeita a natureza tampouco o agricultor que dela vive.

É neste contexto que a antigas práticas agrícolas são revisitadas, procurando inovações que contribuam não apenas para mitigar os graves impactos ambientais hoje identificados, mas também que possam fortalecer relações mais justas e solidárias. A chamada “muvuca de sementes” surge nesse sentido na medida em que caracteriza-se por ser uma técnica eficiente para a recuperação das áreas degradadas permitindo a produção de alimentos.

A técnica consiste em misturar as sementes de várias espécies para o plantio direto na área escolhida para a recuperação. Mas que ninguém se engane: apesar do nome “muvuca”, muito planejamento, organização e trabalho são necessários para garantir o sucesso da prática. Algumas dicas importantes são misturar um pouco de terra úmida para que a muvuca fique mais homogênea e a quebra da dormência das sementes duras, agilizando a germinação destas espécies.

As espécies escolhidas para o plantio podem ser tanto florestais quanto agrícolas, porém é importante que haja grande diversidade plantada. De fato, quanto mais espécies diferentes, melhor será o sistema. Não precisa ter medo se for a mais que o necessário, a experiência de muitos agricultores e técnicos mostra que a natureza é sábia e seleciona por si mesma as espécies que são adaptadas para o local e aquelas que devem sair do plantio.

Nossa experiência tem mostrado que a técnica é mais barata e mais eficiente do que a recuperação só com mudas. Isso se deve, no nosso olhar, uma vez que o preço das sementes é menor e a sobrevivência é maior do que as mudas. Dados de pesquisas indicam que a mortalidade das mudas a campo pode superar 70 %! Considerando que grande parte dos agricultores não tem condição de corrigir previamente o solo, geralmente as mudas sentem muito as condições do clima e a baixa fertilidade e compactação do solo. Diferentemente, as sementes germinando no seu lugar definitivo originam plantas que podem se adaptar com mais facilidade a essas condições.

O grande limitante da técnica é justamente a dificuldade em encontrar as sementes florestais para o plantio, mas já existem grupos se organizando como a “Rede de Sementes do Portal da Amazônia”, para facilitar o acesso dos produtores às sementes. Assim, poderemos construir um ambiente com melhor qualidade para um futuro mais sustentável.


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